O homem tem, na sua génese, uma componente agressiva e violenta, aliás como muitas outras espécies do mundo animal a que pertencemos, mas diz-se que o homem é o único que mata sem ser para comer ou em legítima defesa, isto é, para alem da luta pela sobrevivência como a de todos o seres vivos, o homem tem também outras sensações desagradáveis como, por exemplo, o medo, o ciúme, o ódio, a dor, a raiva, etc, e daí a sua agressividade, por vezes defensiva, perante este tipo de “ameaças”. Assim e apesar da sua inteligência que o levou a civilizar-se e a socializar-se e a consequente adopção de normas, permanece dentro de si uma maior ou menor componente de violência que o leva a atitudes de agressão verbal e física que pode ir até ao assassínio de outros seres humanos, por vezes os próprios familiares muito próximos. Os grandes investimentos da humanidade têm-se concentrado mais no desenvolvimento das ciências concretas, como a Física, a Química, a Medicina, a Economia, etc, do que naquelas que têm o “psico” como centro ou o meio social envolvente, por exemplo a Psicologia e a Sociologia, apesar de nas últimas décadas estas terem avançado muito, mas estão ainda muito longe das necessidades do homem, principalmente das sociedades modernas, satisfeitas que estão, numa parte do mundo, as suas necessidades básicas, mas que, paradoxalmente, lhe criam insatisfação e desilusão, acabando por se deixar “resvalar” para as dependências (álcool, drogas, etc) e enfraquecendo-o nas suas capacidades de luta. Apesar do desenvolvimento da humanidade, o mundo actual continua hostil para o homem aumentando-lhe as suas angústias e os conflitos, sejam eles na vida pessoal, familiar, profissional ou comunitária. Depois, o marketing, com toda a sua força e as suas diversas vertentes, promete-nos a felicidade que, não sendo alcançada, torna-nos mais infelizes e por, vezes, já sem os anéis que hipotecámos na busca dessa felicidade que acabámos por não encontrar. Talvez por isso, os sociólogos projectam já o “regresso às igrejas”, como comportamento alternativo às visitas das “catedrais do consumo”, os centros comerciais, ainda em expansão.
Dizem os estudiosos que o primeiro acto de violência que o ser humano sofre é no próprio acto do nascimento, ao ser expulso do ventre materno, onde viveu em plena harmonia e sem qualquer tipo de agressões (embora o feto sofra com as agressões de que a mãe é vítima). Este será, então, o seu primeiro trauma e a provocar nele um conflito com a própria mãe, principalmente quando alguns dias ou meses depois se apercebe da “expulsão” e que esta lhe vai provocar insegurança, porque perdeu o aconchego materno, onde tinha tudo, sem esforço. A partir daí, vai conflituando com tudo e com todos e a própria socialização que lhe vai sendo imposta, na família, na escola e na sociedade, continuará a alimentar os seus conflitos interiores. Acredito que um pouco das nossas componentes genéticas, se consideramos aqui a inteligência, podem condicionar a nossa personalidade, mas estaremos de acordo que é a socialização, em sentido lato, transmitida ou auto adquirida, que vai influenciar a nossa atitude perante os riscos e as situações desagradáveis da vida, mas também nas muitas situações conflituantes, como sejam as nossas relações com os outros, nos nossos muitos papeis desempenhados ao longo da nossa vida.
A capacidade de pensar e sentir que o homem tem, se por um lado permitiu que fosse construindo uma civilização em seu redor e fosse dominando o mundo (a natureza, o mundo animal, o espaço, etc,), por outro lado, complicou-lhe a vida, criando-lhe novos desejos e novas necessidades para além das necessidades básicas e comuns aos restantes animais. A estrutura organizacional da comunidade, imprescindível ao desenvolvimento da humanidade, definiu tarefas, hierarquias, direitos e deveres, sem os quais as instituições e as sociedades não funcionariam e seria o caos. Nesta organização das sociedades modernas, o homem serve as instituições, mas também se serve delas para satisfazer as suas necessidades, isto é, pratica transacções com os outros. Este duplo papel, de “produtor” e de “consumidor” e o relacionamento com os outros, nas funções familiares, sociais, profissionais, etc, cria nele um conflito e que lhe causa sensações desagradáveis como, por exemplo, o medo, a ansiedade, a dor, o ciúme, o ódio e a raiva e, por causa e ou efeito, pode tornar-se agressivo para com os outros. Sendo inata a agressividade para com os seus “rivais”, o homem tem que aprender a gerir os seus conflitos, numa sociedade que vai evoluindo nas relações interpessoais e, acima de tudo, a preparar-se para “viver” neste meio hostil em que nos movemos. Pela personalidade e pelas referências e valores que fomos cultivando ao longo da nossa educação, formação e socialização, cada um de nós reagirá de forma diferente, perante um conflito semelhante. Mas enquanto alguns são incapazes de agredir o seu “rival”, não por medo mas porque controlam o problema, aplicando técnicas de relacionamento e de controlo emocional e ético, e, acima de tudo, os valores humanos, outros, por conflitos insignificantes, “fervem em pouca água” e daí até à agressão violenta vai apenas a distância de um murro ou o tempo gasto no gatilho de uma arma ou um apunhalada. Por exemplo, vejam-se as (tristes) cenas entre condutores automóveis, em plena estrada/rua ou nos recintos do futebol. Quem, de nós, não esteve já envolvido, com problemas mais ou menos complicados, em situações típicas dos condutores que se provocam e “agridem”, na maioria dos casos e felizmente, apenas com palavras que não deixam, contudo, de ferir? Em situações “condicionantes” (familiares, sociais ou profissionais”), o “verniz estala” e as armas podem ser apenas verbais, mas nem por isso deixam de nos fazer “mossa”.Por vezes, arranjam-se desculpas, isto é, atribuem-se aos nervos a agressividade e a violência praticada, mas sabemos que muitas outras ferramentas anulam ou reforçam esta componente do nosso corpo. As penalidades, a rejeição e a censura familiar, social e profissional, mas acima de tudo a educação, a formação, a comunicação e a razão, são as melhores ferramentas para gerirmos os nossos conflitos, sem grandes prejuízos, para nós e para com os outros. E nas situações extremas, deveremos saber que “é preferível um cobarde vivo, a um herói morto” ou então aquela máxima de que um “murro” (ou uma ofensa) recebido pode “doer” mais a quem o deu do que àquele que o recebeu. A sociedade moderna está, cada vez mais, agressiva. Culpa de quem? Apesar das promessas de felicidade que nos “entram pelos olhos e ouvidos dentro” e da incomparável qualidade de vida material, outros valores se foram perdendo, pelo que as sociedades ocidentais enfermam de uma doença para a qual não se vislumbra a terapia, mas na qual todos nós, como “pacientes e como médicos”, temos responsabilidades.
* Economista

























