Na semana em que a academia das artes e ciências cinematográficas realiza mais uma cerimónia de entrega dos Oscars, vale a pena reflectir sobre o impacto de “Avatar”, o maior êxito de bilheteira dos últimos anos, no cinema de Hollywood.
“Avatar” constituiu um dos mais ambiciosos projectos da indústria de cinema americana, representando um investimento de 500 milhões de dólares, investidos em grande parte no desenvolvimento de novas tecnologias digitais e câmaras de imagem a três dimensões, permitindo a James Cameron a criação de um universo cinematográfico simultaneamente artificial e real, capaz de envolver totalmente o espectador na ilusão da sua narrativa.
É certo que Robert Zemeckis já havia obtido algum êxito com as películas em 3-D, “Polar Express” (2004), “Bewolf” (2007) e “A Christmas Carol” (2009), mas ao contrário do filme de James Cameron, estes estrearam na maioria das salas de cinema em versão “normal”.
Com o êxito alcançado por “Avatar”, Hollywood aposta agora na produção de filmes em 3-D, estando previstas para os próximos meses as estreias de “Toy Story 3”, “Shrek-Forever After”, e “Legend of The Guardians”, três filmes destinados ao público familiar; “Clash of the Titans”, um grande filme de acção e aventura, com o Liam Neeson e Sam Worthington, e “Tron Legacy”, uma aventura de ficção científica, inspirada num jogo de computador.
Não será de resto por acaso, que a grande estreia cinematográfica da semana que passou foi precisamente uma produção estúdios Disney, filmada em três dimensões. Realizado por Tim Burton, “Alice in Wonderland” é uma obra bem conseguida que volta a reunir o autor de clássicos modernos como “Eduardo Mãos de Tesoura” (1990), “ O Grande Peixe” (2003) ou “Charlie e a Fabrica de Chocolate” (2005), com o seu actor fetiche, Johnny Deep, que lidera um elenco de luxo onde se destacam também Helena Bonhan Carter, Anne Hathaway, Stephen Fry e a jovem Mia Wasikowska.
O fenómeno 3-D, parece estar para durar, e estou certo que o previsível sucesso comercial das produções que referi, pode inaugurar uma nova Era na história da 7ª arte. De facto, em época de grande crise económica e social, os espectadores de cinema parecem optar cada vez mais por filmes que lhes permitam fugir por algumas horas à realidade da vida quotidiana.
Este fenómeno não é novo, sendo em tudo semelhante ao que se registou durante a grande depressão económica dos anos 30, período de enorme expansão para a industria cinematográfica de Hollywood e durante o qual esta completou a transição do cinema mudo para o sonoro e desenvolveu os efeitos especiais e a fotografia a cores.
Uma análise comparativa entre os filmes que estão presentemente em exibição nas salas de cinema e os grandes êxitos de Hollywood durante a década de 1930, permite-nos constatar a existência de uma linha de continuidade nos modelos de entretenimento adoptados por Hollywood ao longo das décadas, um facto que é igualmente revelador das preferências dos espectadores ao longo dos anos.
Se em 1931, Bela Lugosi fazia furor com “Dracula”, em 2010 são os jovens vampiros de “Crepúsculo” e “Lua Nova” que conquistam as plateias. Em 1933, “King Kong” bateu recordes de bilheteira e em 2005 Peter Jackson devolveu o gorila mais famoso do mundo às salas de cinema. Em 1941, Lon Chaney foi a estrela de “The Wolfman”, personagem retomada por Benicio del Toro, no recente “O Homem Lobisomem”. Por outro lado, a influência de uma das obras-primas do cinema musical, “O Feiticeiro de Oz” (1939), faz-se notar ainda hoje em películas como “Austrália”, “Charlie e a Fabrica de Chocolate” ou “Alice in Wonderland”.
É evidente que os filmes da saga “Piratas das Caraíbas”, são os descendentes directos das aventuras cinematográficas de Errol Flynn, enquanto os cowboys, heróis da literatura de cordel americana, foram apenas substituídos pelos heróis da Banda Desenhada e dos jogos de computador no imaginário popular.
No actual contexto cultural, não deixa de ser curioso verificar a recuperação de géneros clássicos como o western, que deu recentemente sinais de vida com “O Comboio das 3 e 10” e “Appaloosa”, o filme de gangsters, que foi revisitado por Michael Mann em “Inimigos Públicos” e o filme catástrofe, que retomou a formula dos clássicos “San Francisco” (1936) e “In Old Chicago” (1938), nos mais recentes, “O Dia Depois de Amanhã” e “2012”.
Pela sua natureza lúdica, o cinema constitui desde sempre um fenómeno de massas, que não só reflecte a industria que produz os filmes, como acima de tudo a sociedade que os consome. Nesse sentido, pouco parece ter mudado no que diz respeito às preferências dos espectadores. Ontem como hoje, o cinema constitui uma oportunidade para fugir à realidade que nos rodeia. Assim sendo, o que poderia ser melhor do que uma imagem a três dimensões para emergir o espectador na ilusão do cinema?
* Investigador






















